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Sexta-Feira - 11 de maio de 2012
O GERENTE E
O CHAVEIRO
Nove horas da manhã. O gerente de um banco foi
avisado por um dos funcionários de que o cofre
estava apresentando um problema. Estava travado e
não abria, de jeito nenhum.
O gerente foi até lá e acompanhou as tentativas
desesperadas dos seus auxiliares para destravar o
cofre e nada. Todos os documentos importantes do
banco e também o dinheiro para o funcionamento das
operações do dia estavam lá dentro.
O cofre tinha de ser aberto!
Sem outra alternativa, o gerente mandou chamar um
chaveiro, Seu Sebastião, um idoso, um tanto
rabugento, porém muito competente.
Seu Sebastião chegou ao local, com sua maleta de
ferramentas, ouviu as explicações dos funcionários,
avaliou cuidadosamente a situação, encostou o ouvido
no cofre. Mexeu um pouquinho no acionamento redondo
do segredo, combinou com um movimento no trinque e
pronto, o cofre estava aberto.
Aliás, não apenas o cofre se abriu. Abriram-se
também sorrisos nos rostos até então angustiados de
todos os presentes, que puderam, enfim, respirar
aliviados.
- Quanto lhe devemos, Seu Sebastião? Perguntou
satisfeito o gerente.
- Duzentos reais, respondeu o Seu Sebastião, sem
mudar o semblante, tranquilamente.
- O que? O senhor deve estar brincando, reagiu o
gerente.
- Não senhor! Eu não brinco em serviço. São duzentos
reais mesmo, confirmou o chaveiro.
- O senhor está roubando! Vociferou o gerente,
alterado. Está tentando tirar proveito da situação.
É um desonesto! Não vou pagar isso tudo.
Seu Sebastião nem esperou o gerente terminar a
frase. Bateu a porta do cofre, pegou sua maleta e
saiu porta a fora, resmungando qualquer coisa,
ininteligível.
Todos se olharam perplexos e, ato contínuo, correram
para o cofre na esperança de que ainda estivesse
destravado. Não estava!. Tentaram repetir a operação
feita pelo experiente o chaveiro, mas não funcionou.
Nada funcionava.
A porta do cofre estava, definitivamente travada.
Todos olharam então para o gerente, com aquela cara
de "olha só o que você fez!". E o relógio caminhando
para a hora de abrir o banco, a fila de gente
aumentando lá fora. E não havia nada que se pudesse
fazer. Aliás, havia: chamar o Seu Sebastião de volta
e pagar o que ele estava pedindo. Convenceram o
gerente de que essa era a melhor saída (e a única
naquelas circunstâncias). E foram chamar o Seu
Sebastião, que estava lá na sua oficina, trabalhando
tranquilamente, como sempre esteve.
- De jeito nenhum que eu volto lá. O sujeito me
chamou de ladrão e desonesto, respondeu o chaveiro.
- Mas Seu Sebastião, o homem estava nervoso. Ele já
mudou de idéia, insistiram.
Tentaram todos os argumentos até que Seu Sebastião
concordou em voltar, mas impôs uma condição:
- Ele tem que me pedir desculpas, bradou!
Foi outra dificuldade, mas os funcionários
conseguiram convencer o gerente e ele pediu
desculpas ao Seu Sebastião que, enfim, voltou ao
trabalho, deu uma mexidinha no acionamento do
segredo, combinada com um movimento esperto no
trinque...e pronto! O cofre estava aberto!
O gerente, ainda contrariado, ordenou a um dos
funcionários:
- Pague os duzentos reais ao homem.
Seu Sebastião interrompeu:
- Não senhor! Não são duzentos reais. São
quatrocentos. Eu abri o cofre duas vezes!
O gerente quis reagir, mas foi fulminado por meia
dúzia de olhares dos seus colegas. E Seu Sebastião,
lógico, saiu da agência com os seus quatrocentos
reais.
Moral da história
O valor do serviço não está naquilo que você faz,
mas sim, naquilo que você sabe fazer. Não tenha medo
de cobrar pelo seu serviço. Ele está diretamente
ligado ao valor intrínseco que tem para o cliente, e
isso depende, muitas vezes, das circunstâncias. Que
o diga o gerente!
Qual é o preço do seu serviço?
Sexta-Feira - 04 de maio de 2012
O Gato Sou
Eu
"Todos têm o direito de sonhar e
cada um o de ser o dono de seu sonho"
Fernando Sabino
- AÍ ENTÃO, eu sonhei que tinha acordado. Mas
continuei dormindo.
- Continuou dormindo.
- Continuei dormindo e sonhando. Sonhei que estava
acordado na cama, e ao lado, sentado na cadeira,
tinha um gato me olhando.
- Que espécie de gato?
- Não sei. Um gato. Não entendo de gatos. Acho que
era um gato preto. Só sei que me olhava com aqueles
olhos parados de gato.
- A que você associa essa imagem?
- Não era uma imagem: era um gato.
- Estou dizendo a imagem do seu sonho: essa criatura
onírica simboliza uma profunda vivência interior. É
uma projeção do seu subconsciente. A que você a
associa?
- Associo a um gato.
- Eu sei: aparentemente se trata de um gato. Mas na
realidade o gato, no caso é a representação de
alguém. Alguém que lhe inspira um temor reverencial.
Alguém que a seu ver está buscando desvendar o seu
mais íntimo segredo. Quem pode ser esse alguém, me
diga? Você deitado aí nesse divã como na cama em seu
sonho, eu aqui nesta poltrona, o gato na cadeira...
e evidentemente esse gato sou eu.
- Essa não, doutor. A ser alguém, neste caso o gato
sou eu.
- Você está enganado. É o mais curioso é que, ao
mesmo tempo, está certo, certíssimo, no sentido em
que tudo o que se sonha não passa de uma projeção do
eu.
- Uma projeção do senhor?
- Não: uma projeção do eu. O eu, no caso, é você.
- Eu sou o senhor? Qual é, doutor? Está querendo me
confundir a cabeça ainda mais? Eu sou eu, o senhor é
o senhor, e estamos conversados.
- Eu sei: eu sou eu, você é você. Nem eu iria pôr em
dúvida uma coisa dessas, mais do que evidente. Não é
isso que eu estou dizendo. Quando falo no eu, não
estou falando em mim, por favor, entenda.
- De quem o senhor está falando?
- Estou falando na individualidade do ser, que se
projeta em símbolos oníricos dos quais o gato do seu
sonho é um perfeito exemplo. E o papel que você
atribui ao gato, de fiscalizá-lo o tempo todo, sem
tirar os olhos de você, é o mesmo que atribui a mim.
Por isso é que eu digo que o gato sou eu.
- Absolutamente. O senhor vai me desculpar, doutor,
mas o gato sou eu, e disto não abro mão.
- Vamos analisar essa sua resistência em admitir que
eu seja o gato.
- Então vamos começar pela sua insistência em querer
ser o gato. Afinal de contas, de quem é o sonho: meu
ou seu?
- Seu. Quanto a isto, não há menor dúvida.
- Pois então? Sendo assim, não há também a menor
dúvida de que o gato sou eu, não é mesmo?
- Aí é que você se engana. O gato é você, na sua
opinião. E sua opinião é suspeita, porque é
formulada pelo consciente. Ao passo que no
subconsciente, o gato é uma representação do que
significo para você. Portanto, insisto em dizer: o
gato sou eu.
- E eu insisto em dizer, não é.
- Sou.
- Não é. O senhor, por favor, saia do meu gato, que
senão eu não volto mais aqui.
- Observe como inconscientemente você está
rejeitando minha interferência na sua vida através
de uma chantagem...
- Que é que há, doutor? Está me chamando de
chantagista?
- É um modo de dizer. Não vai nisso nenhuma ofensa.
Quero me referir à sua recusa de que eu participe de
sua vida, mesmo num sonho, na forma de um gato.
- Pois, se o gato sou eu! Daqui a pouco o senhor vai
querer cobrar consulta até dentro do meu sonho.
- Olhe aí, não estou dizendo? Olhe a sua reação:
isso é a sua maneira de me agredir. Não posso cobrar
consulta dentro do seu sonho enquanto eu assumir
nele a forma de um gato.
- Já disse que o gato sou eu!
- Sou eu!
- Ponha-se para fora de meu gato!
- Ponha-se para fora daqui!
- Sou eu!
- Eu!
- Eu!Eu!
- Eu!Eu!Eu!
Sexta-Feira - 27 de abril de 2012
O Executivo
e o Pescador
Um executivo de férias na praia observava um
pescador sobre uma pedra fisgando alguns peixes com
equipamentos bastante rudimentares: linha de mão,
anzol simples, chumbo e iscas naturais.
O executivo chega perto e diz:
- Bom dia, meu amigo, posso me sentar e observar?
O pescador:
- Tudo bem, doutor.
O executivo:
- Poderia lhe dar uma sugestão sobre a pesca?
- Como assim? – Respondeu o pescador.
- Se você me permite, eu não sou pescador, mas sou
executivo de uma multinacional muito famosa e meu
trabalho é melhorar a eficiência da fábrica,
otimizando recursos, reduzindo preços, enfim,
melhorando a qualidade dos nossos produtos. Sou um
expert nessa área e fiz vários cursos no exterior
sobre isto – disse o executivo, entusiasmado com sua
profissão.
- Pois não doutor, o que qui o senhor qué sugeri? –
Perguntou calmamente o pescador.
- Olha, estive observando o que você faz. Você
poderia ganhar dinheiro com isso. Vamos pensar
juntos. Se você pudesse comprar uma vara de pescar
com um molinete, poderia arremessar sua isca para
mais longe, assim pescaria peixes maiores, certo?
Depois disso, você poderia treinar seu filho para
fazer este trabalho para você. Quando ele se
sentisse preparado, você poderia comprar um barco
motorizado com uma boa rede para pescar uma
quantidade maior e ainda vender para as cooperativas
existentes nos grandes centros.
Depois, você poderia comprar um caminhão para
transportar os peixes diretamente, sem os
intermediários, reduzindo sensivelmente o preço para
o usuário final e aumentando também a sua margem de
lucro. Além disso, você poderia ir para um grande
centro para distribuir melhor o seu produto para os
grandes supermercados e peixarias. Já pensou no
dinheiro que poderia ganhar? Aí você poderia vir
para cá como eu vim, descansar e curtir essa paz,
este silêncio da praia, esta brisa gostosa...
- Mas isso eu já tenho hoje! – respondeu o pescador,
olhando fixamente para o mar.
Sexta-Feira - 20 de abril de 2012
O ERMITÃO
Durante o reinado do rei Mabdar viveu na Babilônia
um jovem chamado Zadig. Era formoso, rico e
naturalmente de bom coração. No momento em que esta
história começa, ele estava viajando a pé para ver o
mundo e aprender sobre a vida, filosofia e
sabedoria.
Mas, até esse momento tinha encontrado tanta miséria
e suportado tantos e terríveis desastres que estava
tentado a rebelar-se contra a vontade do céu e
acreditar que a Providência, que rege o mundo,
desdenhava o Bem e permitia que o Mal prosperasse.
Neste triste estado de espírito estava ele
caminhando um dia às margens do Eufrates. Por
casualidade encontrou um venerável ermitão cuja
barba, branca como a neve, descia até a cintura. Em
sua mão o ancião levava um rolo de pergaminho que
lia com atenção. Zadig parou e fez-lhe uma
reverência. O ermitão devolveu-lhe a saudação com um
ar tão bondoso e tão nobre que Zadig sentiu
curiosidade de falar com ele. Perguntou-lhe então o
que ele estava lendo:
- É o Livro do Destino - disse o ermitão. - Você
gostaria de ler este livro?
Entregou o livro a Zadig, mas este, apesar de
conhecer uma dezena de línguas, não pode entender
uma só palavra do livro.
Sua curiosidade foi aumentando.
- Você parece ter problemas... - disse o bondoso
eremita.
- Sim, infelizmente tenho - disse Zadig. - E tenho
razões para estar assim.
- Se me permite - disse o ancião, - eu o
acompanharei. Quem sabe poderei ser-lhe útil. Às
vezes sou capaz de consolar os aflitos.
Zadig sentiu um profundo respeito pela aparência, a
barba branca e o pergaminho misterioso do velho
ermitão, e percebeu que a conversa dele era a de uma
mente superior. O velho falou do destino, da
justiça, da moral - o principal bem da vida -, da
debilidade humana, da virtude e do vício, com tal
poder de eloquência que Zadig se sentiu atraído por
uma espécie de encanto, e suplicou ao ermitão que
não o deixasse até que regressassem à Babilônia.
- Peço-lhe o mesmo favor - disse o eremita. -
Prometa-me que, haja o que houver, você permanecerá
em minha companhia por alguns dias.
Zadig prometeu, e juntos se puseram em marcha.
Naquela noite os viajantes chegaram a uma grande
mansão. O ermitão pediu comida e alojamento para ele
e seu companheiro. O porteiro, que facilmente
poderia ser confundido com um príncipe, os
introduziu na casa com um desdenhoso ar de
boas-vindas.
O chefe dos serventes lhe mostrou os magníficos
aposentos, e então lhes foi permitido sentar-se em
um canto da mesa, na qual estava o senhor da mansão,
que nem se deu ao trabalho de olhá-los. Mesmo assim,
iguarias em abundância lhes foram servidas.
Após a ceia lavaram as mãos em uma bacia de ouro
incrustada com esmeraldas e rubis. Foram então
levados para passar a noite em um formoso aposento.
Na manhã seguinte, antes de deixarem o castelo, um
servente trouxe uma peça de ouro para cada um.
- O senhor da casa - disse Zadig quando estavam
caminhando - parece ser um homem generoso, ainda que
um pouco arrogante, e pratica uma nobre
hospitalidade.
Enquanto falava com ele, se deu conta de que uma
espécie de bolsa grande que o eremita levava parecia
agora abarrotada. Dentro dela estava a bacia de ouro
incrustada de pedras preciosas que o velho havia
furtado. Zadig ficou pasmo, mas não disse nada.
Ao meio-dia o eremita parou em frente a uma pequena
casa onde vivia um rico avarento e, mais uma vez
pediu hospedagem. Um velho criado, usando um puído
casaco, os recebeu muito grosseiramente, acomodou-os
no estábulo e pôs diante deles umas poucas azeitonas
meio estragadas, uns pedaços de pão dormido e
cerveja muito amarga.
O ermitão comeu e bebeu com o mesmo prazer que
tivera na noite anterior. Quando terminaram o
ermitão se dirigiu ao criado, que não havia tirado
os olhos deles para assegurar-se de que nada
roubariam, deu-lhe as duas peças de ouro que haviam
recebido naquela manhã e agradeceu a sua atenção,
acrescentando:
- Tenha a bondade de permitir que eu veja seu amo.
O atônito servo os conduziu para dentro da casa.
- Poderosíssimo senhor - disse o ermitão, - eu
gostaria de apresentar meus humildes agradecimentos
pela nobre maneira com que nos recebeu. Eu suplico
que aceite esta bacia de ouro como demonstração de
minha gratidão.
O miserável avarento quase caiu da cadeira, de tão
assombrado que ficou. O ermitão, sem esperar que ele
se recobrasse, retirou-se rapidamente com seu
companheiro.
- Santo Pai - disse Zadig, - o que significa tudo
isso? Para mim você não se parece em nada aos outros
homens. Você rouba uma bacia de ouro com jóias de um
senhor que nos recebe magnificamente e a dá a um
tacanho que o trata indignamente.
- Meu filho - replicou o ermitão, - esse poderoso
senhor que só recebe os viajantes por vaidade e para
ostentar suas riquezas de agora em diante se fará
mais sábio, e, por outro lado, o miserável será
ensinado a praticar a hospitalidade. Não se espante
com nada, e siga-me.
Zadig não sabia se estava tratando com o mais sábio
ou com o mais tolo dos homens. Mas o ermitão falou
com tal convicção que Zadig, preso a sua promessa,
não teve outra escolha senão segui-lo.
Nessa mesma noite, chegaram a uma casa agradável, de
aspecto simples, que não mostrava sinais de fartura
nem de avareza. O dono era um filósofo que havia
abandonado o mundo e estudava, pacificamente, as
leis da virtude e da sabedoria. Era um homem feliz e
contente. Ele havia criado esse calmo refúgio para
seu prazer e nele recebeu os estrangeiros com uma
generosidade que não mostrava sinais de ostentação.
Ele mesmo os conduziu a um quarto confortável, onde
os fez descansar alguns instantes, e então veio
buscá-los para servir-lhes uma delicada ceia.
Nas conversas que mantiveram entre si, concordaram
que os assuntos deste mundo nem sempre eram
regulados pelas opiniões dos homens mais sábios. O
ermitão, por sua parte, sustentava que os caminhos
da Providência estavam envoltos em mistério e que os
homens faziam mal em emitir julgamento sobre um
universo do qual só conheciam uma parte muito
pequena. Zadig se perguntava como uma pessoa que
cometia atos tão loucos podia pensar tão
corretamente.
Finalmente, depois de uma conversa tão agradável
quanto instrutiva, o anfitrião conduziu os viajantes
a seus quartos e agradeceu ao céu por enviar dois
visitantes tão sábios e virtuosos. Ofereceu-lhes
algum dinheiro, mas o fez com tanta franqueza que
eles não puderam se sentir ofendidos. O velho
recusou e se despediu, pois desejava partir para a
Babilônia ao nascer do dia. Separaram-se em tom
cordial, e Zadig estava cheio de agradáveis
sentimentos por um homem tão amistoso.
Enquanto estavam em seu quarto, Zadig e o ermitão
passaram algum tempo elogiando o anfitrião. Ao
amanhecer o ancião despertou seu companheiro,
dizendo:
- Devemos ir. Mas enquanto todos ainda estão
dormindo desejo deixar a este digno homem um sinal
de minha estima.
Com estas palavras, pegou uma tocha e deitou fogo à
casa.
Zadig começou a gritar horrorizado e teria impedido
esse terrível ato, mas o ermitão, com uma força
superior, o deteve. A casa se tornou uma fogueira, e
o velho, que agora estava bem longe com seu
companheiro, olhou calmamente para a pilha
fumegante.
- O céu seja louvado! - gritou. - A casa de nosso
amável anfitrião está destruída de ponta a ponta!
Ao ouvir estas palavras, Zadig não sabia se chorava
ou se ria; se chamava o venerável de velhaco, se o
golpeava ou se corria para longe dali, mas ele não
fez nenhuma destas coisas. Ainda subjugado pela
aparência superior do ermitão, seguiu-o contra sua
própria vontade até a hospedagem seguinte.
Desta vez chegaram à residência de uma boa e
caridosa viúva que tinha um sobrinho de 14 anos, sua
única esperança e alegria. Ela fez tudo o que pode
pelos viajantes.
Na manhã seguinte pediu a seu sobrinho que os
guiasse na travessia de uma certa ponte em ruínas,
perigosa de se cruzar. O jovem os conduziu, ansioso
por agradá-los.
- Venha - disse o eremita, quando eles estavam no
meio da ponte,
- devo mostrar minha gratidão para com sua tia.
Enquanto falava, ele pegou o jovem pelos cabelos e o
atirou no rio.
O jovem caiu, reapareceu por um instante na
superfície da água e logo foi tragado pele corrente.
- Oh, monstro! - exclamou Zadig. - Você é o mais
detestável dos homens!
- Você me prometeu ter mais paciência - interrompeu
o velho. - Escute! Embaixo das ruínas daquela casa
que a Providência achou conveniente por em chamas, o
dono descobrirá um enorme tesouro; e quanto o jovem,
cuja existência a Providência cortou, teria matado a
tia em um ano e a você em dois anos.
- Quem lhe disse isto, bárbaro? - gritou Zadig. -
Ainda que você tenha lido isso no Livro do Destino,
quem lhe deu poder para afogar um jovem que nunca
lhe fez nada?
Enquanto falava, Zadig viu que o ancião já não tinha
mais barba e que seu rosto tinha se tornado jovem e
belo. Seu traje de eremita havia desaparecido,
quatro asas brancas cobriam a sua majestosa forma e
brilhavam com ofuscante esplendor.
- Anjo do Céu! - gritou Zadig. - Você então desceu
do céu para ensinar a um mortal extraviado a
submeter-se às leis eternas?
- Os homens - replicou o anjo Jezrael - julgam todas
as coisas sem conhecimento, e você é, de todos os
homens, o mais merecedor de ser esclarecido. O mundo
imagina que o jovem que acaba de perecer caiu por
acidente na água e que a casa do filósofo se
incendiou por acaso. Mas a causalidade não existe:
tudo é prova, castigo ou profecia. Frágil mortal!
Pare de questionar e de se rebelar contra o que você
deveria adorar!
Depois de dizer estas palavras, o anjo alçou vôo até
o céu e Zadig se prostrou ajoelhado.
Sexta-Feira - 13 de abril de 2012
O Eco e a Vida
Um filho e seu pai caminhavam pelas montanhas.
De repente seu filho cai, machuca e grita: - Aaaii!!
Para sua surpresa escuta a voz se repetir, em algum
lugar da montanha: - Aaaii!!
Curioso, pergunta: - Quem é você??
Recebe como resposta: - Quem é você??
Contrariado, grita: - Seu covarde!!
Escuta como resposta: - Seu covarde!!
Olha para o pai e pergunta aflito: - O que é isso?
O pai sorri e fala: - Meu filho preste atenção.
Então o pai grita em direção a montanha: - Eu admiro
você!
A voz responde: - Eu admiro você!
De novo o homem grita: - Você é um campeão!
A voz responde: - Você é um campeão!
O menino fica espantado, não entende.
Então o pai explica:
- As pessoas chamam isso de ECO, mas na verdade isso
é a VIDA... Ela lhe da de volta tudo o que você diz
ou faz.
Nossa vida é simplesmente o reflexo de nossas ações.
Se você quer mais amor na sua vida, crie mais amor
no seu coração.
Se você quer mais sinceridade, mais paz e mais
alegria em sua vida, cultive esses sentimentos
dentro de você e os transmita para as pessoas, que
você receberá de volta todo esse carinho, toda essa
paz que você procurou transmitir.
O mundo é somente a prova da nossa capacidade.
Tanto no plano pessoal quanto no profissional, a
vida vai lhe dar de volta o que você deu a ela.
Sua vida não é uma COINCIDÊNCIA, é CONSEQUÊNCIA de
você.
Sexta-Feira - 06 de abril de 2012
O DOENTE
Nasrudin,
sentado na sala de espera do consultório médico,
repetia em voz alta:
- Espero que eu esteja muito doente!
Com isso, os outros pacientes
ficavam cada vez mais intrigados.
Quando o médico apareceu,
Nasrudin repetia
quase gritando:
- Espero que eu esteja muito
doente!
- Por que diz isso,
Mullá?, perguntou
o médico.
- Detestaria pensar que alguém que se sinta tão mal
como eu não tenha nada!
Sexta-Feira - 30 de março de 2012
O Conferencista e o Tratador de Cavalos
Uma medida diferente para cada situação
Um homem tornou-se famoso pelas conferências que
fazia. Conferências essas que tratavam dos assuntos
mais variados. Possuía imensa cultura, boa dicção,
presença magnífica e cativante. Cada apresentação
atraia público distinto, selecionado e numeroso,
pródigo em entusiasmados aplausos. Viajava sempre em
função dessa atividade.
Numa certa cidade, ao chegar no lugar previamente
marcado para uma conferência, viu com espanto que o
auditório estava vazio. Isto é, quase vazio, pois na
primeira fila estava sentado um senhor de aparência
humilde, vestido modestamente.
O conferencista consultou em sua agenda se o local
era aquele mesmo. Era. Verificou se o dia, mês e
horário estavam corretos. Estavam. Não entendeu a
falta de público. Chegou-se ao único ouvinte:
— Veja bem, meu amigo, aqui estamos só nós dois.
Mesmo assim, você quer ouvir a minha palestra?
O homem retrucou:
— Olhe doutor, eu sou um homem muito simples, sou um
tratador de cavalos. Trabalho numa fazenda e minha
função é, numa hora certa, tocar um sino para chamar
os animais. Eles ficam soltos no pasto e quando
escutam o sino, descem todos até à cocheira. Aí
então eu coloco aquele mundão de comida nos coxos.
Eles comem e voltam pros pastos. O senhor acredita,
Doutor, que teve um dia, não sei por que, os cavalos
não vieram comer. Eu estava vendo eles lá longe e
percebi que estavam bem. Só que eu tocava o sino e
eles não me davam a menor confiança. Finalmente um
cavalo desceu, só um. Mas mesmo assim eu dei comida
para ele.
O conferencista entendeu o recado. Ali estava um
homem que havia se deslocado de sua casa para
ouvi-lo. Cumpria-lhe, portanto, oferecer-lhe o que
buscava.
Subiu no tablado e começou a falar. Escolheu, entre
os temas, o mais palpitante, o que ele sabia ser o
mais polêmico, que suscitava depois debates mais
acalorados. Usou toda a sua verve, sua prosopopéia,
figuras de estilo, metáforas. Falou durante hora e
meia seguidas.
Quando acabou, num gesto teatral, encaminhou-se para
o solitário ouvinte que batia palmas timidamente:
— Então, meu amigo, gostou de minha conferência?
E o homem:
— Gostei, gostei muito. Eu não entendi nada, mas que
o doutor falou bonito, falou. Nunca tinha visto
ninguém falar assim. Como já lhe disse, sou um
simples tratador de cavalos. Mas vou dizer pro
senhor uma coisa. No tal dia que apareceu só um
cavalo pra comer e não pus a comida toda para ele
não. Só a conta de um.
Sexta-Feira - 23 de março de 2012
O Cavalinho e a Borboleta
Silvana Duboc
Esta é a história de duas criaturas de Deus que
viviam numa floresta distante há muitos anos atrás.
Eram elas, um cavalinho e uma borboleta. Na verdade,
não tinham praticamente nada em comum, mas em certo
momento de suas vidas se aproximaram e criaram um
elo.
A borboleta era livre, voava por todos os cantos da
floresta enfeitando a paisagem.
Já o cavalinho, tinha grandes limitações, não era
bicho solto que pudesse viver entregue à natureza.
Nele, certa vez, foi colocado um cabresto por alguém
que visitou a floresta e a partir daí sua liberdade
foi cerceada.
A borboleta, no entanto, embora tivesse a amizade de
muitos outros animais e a liberdade de voar por toda
a floresta, gostava de fazer companhia ao cavalinho,
agradava-lhe ficar ao seu lado e não era por pena,
era por companheirismo, afeição, dedicação e
carinho.
Assim, todos os dias, ia visitá-lo e lá chegando
levava sempre um coice, depois então um sorriso.
Entre um e outro ela optava por esquecer o coice e
guardar dentro do seu coração o sorriso.
Sempre o cavalinho insistia com a borboleta que lhe
ajudasse a carregar o seu cabresto por causa do seu
enorme peso. Ela, muito carinhosamente, tentava de
todas as formas ajudá-lo, mas isso nem sempre era
possível por ser ela uma criaturinha tão frágil.
Os anos se passaram e numa manhã de verão a
borboleta não apareceu para visitar o seu
companheiro. Ele nem percebeu, preocupado que ainda
estava em se livrar do cabresto.
E vieram outras manhãs e mais outras e milhares de
outras, até que chegou o inverno e o cavalinho
sentiu-se só e finalmente percebeu a ausência da
borboleta. Resolveu então sair do seu canto e
procurar por ela.
Caminhou por toda a floresta a observar cada
cantinho onde ela poderia ter se escondido e não a
encontrou.
Cansado se deitou embaixo de uma árvore. Logo em
seguida um elefante se aproximou e lhe perguntou
quem era ele e o que fazia por ali.
— Eu sou o cavalinho do cabresto e estou a procura
de uma borboleta que sumiu.
— Ah, é você então o famoso cavalinho?
— Famoso, eu?
— É que eu tive uma grande amiga que me disse que
também era sua amiga e falava muito bem de você. Mas
afinal, qual borboleta que você está procurando?
— É uma borboleta colorida, alegre, que sobrevoa a
floresta todos os dias visitando todos os animais
amigos.
— Nossa, mas era justamente dela que eu estava
falando. Não ficou sabendo? Ela morreu e já faz
muito tempo.
— Morreu? Como foi isso?
— Dizem que ela conhecia, aqui na floresta, um
cavalinho, assim como você e todos os dias quando
ela ia visitá-lo, ele dava-lhe um coice. Ela sempre
voltava com marcas horríveis e todos perguntavam a
ela quem havia feito aquilo, mas ela jamais contou a
ninguém.
Insistíamos muito para saber quem era o autor
daquela malvadeza e ela respondia que só ia falar
das visitas boas que tinha feito naquela manhã e era
aí que ela falava com a maior alegria de você.
Nesse momento o cavalinho já estava derramando
muitas lágrimas de tristeza e de arrependimento.
— Não chore meu amigo, sei o quanto você deve estar
sofrendo. Ela sempre me disse que você era um grande
amigo, mas entenda, foram tantos os coices que ela
recebeu desse outro cavalinho, que ela acabou
perdendo as asinhas, depois ficou muito doente,
triste e sucumbiu e morreu.
— E ela não mandou me chamar nos seus últimos dias?
— Não, todos os animais da floresta quiseram lhe
avisar, mas ela disse o seguinte:
"Não perturbem meu amigo com coisas pequenas, ele
tem um grande problema que eu nunca pude ajudá-lo a
resolver. Carrega no seu dorso um cabresto, então
será cansativo demais pra ele vir até aqui."
Você pode até aceitar os coices que lhe derem quando
eles vierem acompanhados de beijos, mas em algum
momento da sua vida, as feridas que eles vão lhe
causar, não serão mais possíveis de serem
cicatrizadas.
Quanto ao cabresto que você tiver que carregar
durante a sua existência, não culpe ninguém por
isso, afinal muitas vezes, foi você mesmo que o
colocou no seu dorso.
Sexta-Feira - 16 de março de 2012
O CASAMENTO E NASRUDIN
Certa tarde, conta uma antiga história sufi,
Nasrudin tomava chá e conversava com um amigo sobre
a vida e o amor.
- Por que você nunca se casou, Nasrudin?, perguntou
o amigo.
- Bem, respondeu, Nasrudin, - para dizer a verdade,
passei toda a minha juventude a procurar a mulher
perfeita. No Cairo conheci uma moça linda e
inteligente, com olhos que pareciam olivas pretas,
mas ela não era muito cortês. Depois, em Bagdá,
conheci uma mulher de alma generosa e amiga, mas não
tínhamos muitos interesses em comum. Muitas mulheres
passaram pela minha vida, mas em cada uma delas
faltava alguma coisa, ou alguma coisa estava demais.
então, um dia, eu a conheci. Era linda, inteligente,
generosa e bem- educada. Tínhamos tudo em comum. Na
verdade, ela era perfeita.
- E então, replicou o amigo de Nasrudiin, - o que
aconteceu? Por que você não se casou com ela?
Pensativo, Nasrudin sorveu mais um gole de chá e
concluiu:
- Infelizmente, parece que ela estava a procura do
homem perfeito.
Sexta-Feira - 9 de março de 2012
O Cachorrinho
Um menino pergunta o preço dos filhotes à venda.
"Entre 30 e 50 dólares", respondeu o dono da loja.
O menino puxou uns trocados do bolso e disse:
"Eu só tenho 2,37 dólares, mas eu posso ver os
filhotes?"
O dono da loja sorriu e chamou Lady, que veio
correndo, seguida de cinco bolinhas de pêlo. Um dos
cachorrinhos vinha mais atrás, mancando de forma
visível. Imediatamente o menino apontou aquele
cachorrinho e perguntou:
"O que é que há com ele?"
O dono da loja explicou que o veterinário tinha
examinado e descoberto que ele tinha um problema na
junta do quadril, sempre mancaria e andaria devagar.
O menino se animou e disse:
"Esse é o cachorrinho que eu quero comprar!"
O dono da loja respondeu:
"Não, você não vai querer comprar esse. Se você
realmente quiser ficar com ele, eu lhe dou de
presente."
O menino ficou transtornado e, olhando bem na cara
do dono da loja, com o seu dedo apontado, disse:
"Eu não quero que você o dê para mim. Aquele
cachorrinho vale tanto quanto qualquer um dos outros
e eu vou pagar tudo. Na verdade, eu lhe dou 2,37
dólares agora e 50 centavos por mês, até completar o
preço total."
O dono da loja contestou:
"Você não pode querer realmente comprar este
cachorrinho. Ele nunca vai poder correr, pular e
brincar com você e com os outros cachorrinhos."
Aí, o menino abaixou e puxou a perna esquerda da
calça para cima, mostrando a sua perna com um
aparelho para andar. Olhou bem para o dono da loja e
respondeu:
“Bom, eu também não corro muito bem e o cachorrinho
vai precisar de alguém que entenda isso."
Muitas vezes desprezamos as pessoas com as quais
convivemos diariamente, simplesmente por causa dos
seus "defeitos", quando na verdade, somos tão iguais
ou pior do que elas e sabemos que essas pessoas
precisam apenas de alguém que as compreendam e as
amem não pelo que elas podem fazer, mas pelo que
são.
Sexta-Feira - 2 de março de 2012
O ANÚNCIO
Nasrudin
postou-se na praça do mercado e dirigiu-se à
multidão:
- Ó povo deste lugar! Querem conhecimento sem
dificuldade, verdade sem falsidade, realização sem
esforço, progresso sem sacrifício?
Logo juntou-se um grande número de pessoas, todas
gritando em coro:
- Queremos,
queremos!
- Excelente!, disse o Mullá. Era só para saber.
Podem confiar em mim. Lhes contarei tudo a respeito,
caso algum dia descubra algo assim.
Sexta-Feira - 24 de fevereiro de 2012
O Anel
Certo dia, um aluno foi pedir conselhos para seu
professor.
- Venho aqui, professor, porque me sinto tão pouca
coisa, que não tenho forças para fazer nada.
Dizem-me que não sirvo para nada, que não faço nada
bem, que sou lerdo e muito idiota. Como posso
melhorar? O que posso fazer para que me valorizem
mais?
O professor sem olhá-lo, disse:
- Sinto muito meu jovem, mas não posso te ajudar,
devo primeiro resolver meu próprio problema. Talvez
depois.
E fazendo uma pausa falou:
- Se você me ajudasse, eu poderia resolver este
problema com mais rapidez e depois talvez possa te
ajudar.
- C...Claro, professor - gaguejou o jovem. Mas se
sentiu outra vez desvalorizado e hesitou em ajudar
seu professor.
O professor tirou um anel que usava no dedo pequeno,
deu ao garoto e disse:
- Monte no cavalo e vá até o mercado. Devo vender
esse anel porque tenho que pagar uma dívida. É
preciso que obtenhas pelo anel o máximo possível,
mas não aceite menos que uma moeda de ouro. Vá e
volte com a moeda o mais rápido possível.
O jovem pegou o anel e partiu. Mal chegou ao mercado
começou a oferecer o anel aos mercadores. Eles
olhavam com algum interesse, até quando o jovem
dizia o quanto pretendia pelo anel. Quando o jovem
mencionava uma moeda de ouro, alguns riam, outros
saiam sem ao menos olhar para ele.
Só um velhinho foi amável a ponto de explicar que
uma moeda de ouro era muito valiosa para comprar um
anel. Tentando ajudar o jovem, chegaram a oferecer
uma moeda de prata e uma xícara de cobre, mas o
jovem seguia as instruções de não aceitar menos que
uma moeda de ouro e recusava as ofertas.
Depois de oferecer a jóia a todos que passaram pelo
mercado, abatido pelo fracasso montou no cavalo e
voltou. O jovem desejou ter uma moeda de ouro para
que ele mesmo pudesse comprar o anel, assim livrando
a preocupação de seu professor e podendo receber
ajuda e conselhos.
Entrou na casa e disse:
- Professor, sinto muito, mas foi impossível
conseguir o que me pediu. Talvez pudesse conseguir 2
ou 3 moedas de prata, mas não acho que se possa
enganar ninguém sobre o valor do anel.
- Importante, meu jovem - contestou o professor
sorridente - devemos saber primeiro o valor do anel.
Volte a montar no cavalo e vá até o joalheiro. Quem
melhor para saber o valor exato do anel? Diga que
quer vender o anel e pergunte quanto ele te dá por
ele. Mas não importa o quanto ele te ofereça, não o
venda. Volte aqui com meu anel.
O jovem foi até o joalheiro e lhe deu o anel para
examinar. O joalheiro examinou o anel com uma lupa,
pesou o anel e disse:
- Diga ao seu professor, se ele quer vender agora,
que não posso dar mais que 61 moedas de ouro pelo
anel.
- 61 MOEDAS DE OURO!!! - exclamou o jovem.
- Sim, replicou o joalheiro, eu sei que com tempo eu
poderia oferecer cerca de 80 moedas, mas se a venda
é urgente...
O jovem correu emocionado até a casa do professor
para contar o que ocorreu.
- Sente-se - disse o professor. E depois de ouvir
tudo que o jovem lhe contou disse:
- Você é como esse anel, uma jóia valiosa e única. E
que só pode ser avaliada por um expert. Pensava que
qualquer um poderia descobrir o seu verdadeiro
valor? - e dizendo isso voltou a colocar o anel no
dedo.
- Todos somos como esta jóia: valiosos e únicos. E a
primeira pessoa que deve reconhecer esse valor é
você mesmo. Entretanto, andamos por todos os
mercados da vida pretendendo que pessoas
inexperientes nos valorizem, porém ninguém, além do
Grande Joalheiro sabe o nosso valor! Ninguém pode
lhe fazer sentir inferior sem seu consentimento.
“Preocupe-se mais com o seu caráter do que com a sua
reputação, porque o caráter é o que você é, e a
reputação é o que os outros pensam de você.”
Sexta-Feira - 17 de fevereiro de 2012
O Aluno e o Sábio
Numa pequena cidade da Grécia, vivia um sábio famoso
por saber as respostas de todas as perguntas que lhe
eram dirigidas.
Um dia, um jovem estudante, conversando com seus
amigos, disse que iria desafiar o sábio e iria
enganá-lo.
Disse que faria o seguinte:
Apanharei um passarinho e o levarei escondido em
minha mão até o sábio.
Então eu vou perguntar a ele se o passarinho está
vivo ou morto. Se ele disser que está vivo, esmago o
passarinho e o mato, deixando-o cair no chão; mas se
ele disser que está morto, abro a minha mão e o
deixarei voar na frente de todas as pessoas.
Assim fez. O jovem se aproximou do Sábio com o
pássaro na sua mão e perguntou:
- Sábio, o passarinho em minha mão está vivo ou
morto?
O sábio olhou para o rapaz e disse:
- Meu jovem, a resposta está em suas mãos.
A excelência sempre esteve e estará em suas mãos,
basta você agir.
Sexta-Feira - 10 de fevereiro de 2012
NASRUDIN E O OVO
Certa manhã, Nasrudin - o grande místico sufi que
sempre fingia ser louco - colocou um ovo embrulhado
em um lenço, foi para o meio da praça de sua cidade,
e chamou aqueles que estavam ali.
- Hoje teremos um importante concurso! - disse -
Quem descobrir o que está embrulhado neste lenço, eu
dou de presente o ovo que está dentro! As pessoas se
olharam, intrigadas, e responderam:
- Como podemos saber? Ninguém aqui é capaz de fazer
adivinhações!
Nasrudin insistiu:
- O que está neste lenço tem um centro que é amarelo
como uma gema, cercado de um líquido da cor da
clara, que por sua vez está contido dentro de uma
casca que quebra facilmente. É um símbolo de
fertilidade, e nos lembra dos pássaros que voam para
seus ninhos. Então, quem pode me dizer o que está
escondido?
Todos os habitantes pensavam que Nasrudin tinha em
suas mãos um ovo, mas a resposta era tão óbvia, que
ninguém resolveu passar vergonha diante dos outros.
E se não fosse um ovo, mas algo muito importante,
produto da fértil imaginação mística dos sufis? Um
centro amarelo podia significar algo do sol, o
líquido ao redor talvez fosse um preparado
alquímico. Não, aquele louco estava querendo fazer
alguém de ridículo.
Nasrudin perguntou mais duas vezes, e ninguém se
arriscou a dizer algo impróprio. Então ele abriu o
lenço e mostrou a todos o ovo.
- Todos vocês sabiam a resposta - afirmou. - E
ninguém ousou traduzi-la em palavras.
“É assim a vida daqueles que não tem coragem de
arriscar: as soluções são dadas generosamente, mas
estas pessoas sempre procuram explicações mais
complicadas, e terminam não fazendo nada.”
Sexta-Feira - 03 de fevereiro de 2012
NASRUDIN E O JUIZ
Certo dia, um juiz perguntou ao mestre Nasrudin:
- Mestre, no caso de você ter de escolher entre a justiça e o dinheiro, o que você escolheria?
- O dinheiro, é claro - respondeu Nasrudin, sem pestanejar.
- O quê! - disse o juiz. Pois eu escolheria a justiça sem pensar duas vezes, porque a justiça não é fácil de ser encontrada, enquanto o dinheiro, este não é tão raro assim. Podemos encontrá-lo por aí sem grandes dificuldades. Estou sinceramente espantado com a sua opção, Nasrudin. Não o julgava capaz de uma ambição, sendo um mestre!
- Meritíssimo, cada um deseja aquilo que mais lhe falta! - respondeu tranquilamente o mestre Nasrudin. O senhor deseja justamente aquilo que sempre lhe falta.
Sexta-Feira - 27 de janeiro de 2012
Mudança de Paradigma
Eu me recordo de uma mudança de paradigma que me
aconteceu em uma manhã de domingo, no metrô de Nova
York. As pessoas estavam calmamente sentadas, lendo
jornais, divagando, descansando com os olhos
semicerrados. Era uma cena calma, tranquila.
Subitamente um homem entrou no vagão do metrô com os
filhos. As crianças faziam algazarra e se
comportavam mal, de modo que o clima mudou
instantaneamente.
O homem sentou-se ao meu lado e fechou os olhos,
aparentemente ignorando a situação. As crianças
corriam de um lado para o outro, atiravam coisas e
chegavam até a puxar os jornais dos passageiros,
incomodando a todos. Mesmo assim o homem ao meu lado
não fazia nada.
Ficou impossível evitar a irritação. Eu não
conseguia acreditar que ele pudesse ser tão
insensível a ponto de deixar que seus filhos
incomodassem os outros daquele jeito sem tomar uma
atitude. Dava para perceber facilmente que as demais
pessoas estavam irritadas também. A certa altura,
enquanto ainda conseguia manter a calma e o
controle, virei para ele e disse:
– Senhor, seus filhos estão perturbando muitas
pessoas. Será que não poderia dar um jeito neles?
O homem olhou para mim, como se estivesse tomando
consciência da situação naquele exato momento, e
disse calmamente:
– Sim, creio que o senhor tem razão. Acho que
deveria fazer alguma coisa. Acabamos de sair do
hospital, onde a mãe deles morreu há uma hora. Eu
não sei o que pensar, e parece que eles também não
conseguem lidar com isso.
Podem imaginar o que senti naquele momento? Meu
paradigma mudou. De repente, eu vi as coisas de um
modo diferente, e como eu estava vendo as coisas de
outro modo, eu pensava, sentia e agia de um jeito
diferente. Minha irritação desapareceu. Não
precisava mais controlar minha atitude ou meu
comportamento, meu coração ficou inundado com o
sofrimento daquele homem. Os sentimentos de
compaixão e solidariedade fluíram livremente.
– Sua esposa acabou de morrer? Sinto Muito. Gostaria
de falar sobre isso? Posso ajudar em alguma coisa? –
Tudo mudou naquele momento.
Muita gente passa por uma experiência similar de
mudança no pensamento quando enfrenta uma crise
séria, encarando suas prioridades sob nova luz. Isso
também acontece quando as pessoas assumem
repentinamente novos papéis, como marido, esposa,
pai, avô, gerente ou líder.
Sexta-Feira - 20 de janeiro de 2012
MENTIRA E VERDADE
Em dada ocasião, um rei chamou Nasrudin para se
consolar:
- Ah, Mullá, estou triste. Meu povo anda mentindo
demais, não sei mais o que fazer. O que posso fazer
quando o povo me falta com a verdade.
- Acontece, rei - respondeu Nasrudin - que nem
sempre é fácil diferenciar a verdade da mentira.
- Mas é claro que é, Mullá - retrucou o rei - a
verdade impele ao bem, enquanto a mentira só visa
enganar...
- Essa é a teoria, mas é preciso que todos saibam na
prática o que é mentira e o que é verdade...
Assim, Nasrudin combinou com o rei e com o carrasco
da corte que na manhã seguinte todos os cidadãos
iriam ser levados para fora dos muros da cidade e
antes de entrarem o carrasco deveria perguntar o que
queriam fazer na cidade, os que mentissem, seriam
enforcados em praça pública.
E assim foi. Na manhã seguinte estavam todos os
cidadãos em frente ao portal da cidade e o capataz
falou:
- Todos os que desejam entrar na cidade devem me
dizer o motivo, aqueles que mentirem serão
enforcados.
- Eu serei o primeiro - disse Nasrudin, e se
encaminhou na direção do carrasco.
- Por que quer entrar na cidade? - perguntou.
- Eu estou indo ser enforcado naquela forca - e
apontou para a praça.
- Isso é uma mentira, Mullá!!! - disse o carrasco.
- Se estou mentindo, então me enforque, oras!
Sexta-Feira - 13 de janeiro de 2012
Mensagem de Amor
Era uma vez uma ilha onde moravam todos os
sentimentos: a Alegria, a Verdade, a Sabedoria e o
Amor.
Um dia avisaram aos moradores da ilha que ela seria
inundada. Apavorado, o Amor cuidou para que todos os
sentimentos se salvassem. Ele dizia: “Fujam todos! A
ilha vai inundar!”
Todos correram e pegaram seus barquinhos para chegar
num lugar onde havia um morro bem alto. Só o Amor
não se apressou. Ele queria ficar um pouco mais com
sua ilha. Na hora que precisou sair, ele perguntou:
“Riqueza, me leva com você?”
“Não posso, Amor, meu barco está cheio de ouro e
prata, e não tem espaço.”
Passou então a Vaidade, e ele pediu:
“Vaidade, me leva com você?”
“Não posso, vai sujar meu barco novo.”
Passou a Tristeza, e perguntou:
“Tristeza, posso ir com você?”
“Oh, Amor, estou tão triste... Prefiro ir sozinha.”
Passou a Alegria, mas estava tão alegre que nem
ouviu o Amor.
Já desesperado, achando que ficaria só, o Amor
começou a chorar.
Então passou um barquinho com um velhinho, e este
falou:
“Sobe Amor, eu te levo.”
O Amor ficou tão feliz que até se esqueceu de
perguntar o nome do velhinho.
Chegando ao alto do morro, o Amor perguntou para a
Sabedoria quem era o velhinho que o levara para ali.
“Ora, foi o Tempo.”
“O Tempo? Mas por que só o Tempo me trouxe aqui”?
“Ora, porque só o Tempo é capaz de cuidar e entender
um grande Amor.”
Sexta-Feira - 6 de janeiro de 2012
MÁSCARA
Era uma vez, na China Antiga, um homem chamado Wong,
que se sentia hostilizado pelas pessoas da pequena
aldeia em que morava.
Um dia o senhor Wong foi visitar o sábio da região e
então desabafou:
“Cumpro minhas obrigações para com os deuses, sou um
bom cidadão, um exemplar chefe de família e vivo
praticando a caridade. Por que as pessoas não gostam
de mim?”
E a resposta do mestre foi simples: Embora o senhor
Wong fosse bom e caridoso, o seu rosto sério levava
a todos uma conclusão diferente. Embora ele fosse
muito rico, era pobre de “alegria” e “cordialidade”
e, por outro lado, nunca sorria, embora ajudasse às
pessoas.
O sábio deu ao senhor Wong uma máscara sorridente
que se ajustava perfeitamente ao seu rosto.
Advertiu-o, entretanto, de que se algum dia a
tirasse do rosto, não conseguiria recolocá-la.
No primeiro dia em que Wong saiu à rua, todos
começaram a cumprimentá-lo e em pouquíssimo tempo já
estava cheio de amigos.
Mas, um dia, chegando à conclusão que as pessoas não
gostavam dele, mas da máscara, pensou: “É preferível
ser hostilizado, a ser estimado por uma aparência
falsa”.
Foi até o espelho e retirou a máscara sorridente.
Mas que surpresa! O seu rosto tornara-se também
sorridente, assumira as expressões e o sorriso da
máscara.
Contato
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